18 anos de “The Unseen” #02: O invisível surge para o mundo

[Esta é a segunda e última parte da série de textos sobre os 18 anos de ” The Unseen”. Para ler a primeira parte, cliquei aqui!]
Quasimoto e Madlib
Quasimoto e Madlib
“The Unseen”: O invisível surge para o mundo.

 “Oh, céus! Ele não tem família. Ele é um cara esgueirado! Ele recebe informações de qualquer lugar – Sun Ra, o diabo, pessoas falsas chegando até ele, mulheres pedindo dinheiro, donos de lojas de discos estúpidos.”

[Madlib, em entrevista para The Giant Peach.]

Essa citação dá uma luz acerca de como Madlib concedeu o que vamos chamar de “intelecto” de Quasimoto. É claro que, sendo ele um alter-ego do próprio MC, as ideias por ele divulgadas são, certamente, ideias do próprio Madlib. Mas, é interessante notar em momentos onde ambos rimam na mesma música, como as coisas se divergem. Quasimoto é um lado b de Madlib, uma outra personalidade, uma influência diferente de tudo o que é o produtor em si. Citando Sun Rá é possível entender a característica “alien” de Lord Quas, como o próprio Sun Rá dizia ser um enviado do planeta Saturno, um homem que “náo era desse mundo”.  Sun Rá esse que influência muito da obra de Madlib, seja com samples, ideias, filosofia, e até mesmo com o nome de algumas músicas em “The Unseen”.
A personalidade excêntrica de Sun Rá pode ser vista na própria personalidade de Madlib, um cara que recusou praticamente todas as entrevistas que lhe foram propostas durante os anos 2000, e que só agora, 20 e tantos anos depois do início da carreira, pode ser visto falando mais abertamente sobre seu trabalho. O homem que diz passar 24 horas do seu dia ouvindo ou fazendo música, que não sabemos sobre a vida pessoal em nenhuma de duas esferas, pode ser considerado um discípulo de Sun Rá menos extravagante. “The Unseen” não deixaria de ser o título mais apropriado pro cara que vive as sombras.

 

Madlib durante quase toda sua carreira se propôs a fazer um RAP que fugisse ao ideal gangsta, trazendo linhas sobre a cultura Hip-Hop, suas próprias vivências e influências pessoas. Como disse em uma entrevista para a Dazed: “Eu tinha membros da família que estavam atirando uns nos outros. Alguns eram Crips e outros eram Bloods. Era apenas a mentalidade deles. As pessoas sofrem lavagem cerebral vivendo nos bairros. Fiquei longe de todos, entrei na adolescência, fiquei em casa e fiz música. Eles estavam andando com Dickies; Eu estava andando com um relógio no meu pescoço ouvindo Public Enemy e esse tipo de merda. Eu era o cara estranho, mas não me importava. A música me salvou: meus pais compraram nosso equipamento para nos manter em casa. Funcionou.”
Já Quasimoto, diferente de Madlib, é o vilão a ser combatido, e isso fica explicito no interlúdio que inicia o disco. Amante da vida boêmia, está sempre acompanhado de mulheres, bebidas, maconha, cigarro, rolês de carro pelas ruas da Califórnia, sempre pronto para ser o grande vilão a que se
propõe.
 
"Senhoras e Senhores, Bem-vindo à Violência!  A palavra é o ato, enquanto a violência se esconde em uma infinidade de disfarces .  Seu manto favorito ainda permanece no sexo (sexo, sexo). Violência devora tudo o que toca, seu apetite voraz raramente cumprido. Mas violência não é só destruir, ela cria e molda também. Vamos examinar atentamente, em seguida, esta criação perigosamente mal, esta nova raça .. " [Quasimoto - Welcome to Violence]
“Senhoras e Senhores, Bem-vindo à Violência!  A palavra é o ato, enquanto a violência se esconde em uma infinidade de disfarces .  Seu manto favorito ainda permanece no sexo (sexo, sexo). Violência devora tudo o que toca, seu apetite voraz raramente cumprido. Mas violência não é só destruir, ela cria e molda também. Vamos examinar atentamente, em seguida, esta criação perigosamente mal, esta nova raça .. ” [Quasimoto – Welcome to Violence]
Voltando a “Bad Character” e dando continuidade a análise do disco, essa faixa começa com algumas linhas que dão o tom por todo o disco e personalidade de Quasimoto. O ato de estar sempre com o tijolo em mãos é explicado na linha “I’ll smack a nigga with a brick, talkin’ outta place“, o que sugere que o tijolo seja sua “arma de intimidação pela cidade”. É uma faixa que denota toda a personalidade gângster do alter-ego, suas desventuras e forma de ver o mundo ao seu redor.

 

As rimas passando por mais referências a Sun Rá, ao citar as faixas Astro Black e Astro Travellin’, até chegar ao fim, onde retorna a sua posição de garoto mau. (Yo, I’m labelled as a bad character
No matter what I do I’m labelled as a bad character). Interessante notar como, mesmo vendendo essa imagem de bad-boy, ele fala como se, independente de sua atitude, sempre vão considera-lo um vilão, como se houvesse algum tipo de rancor quanto a isso.

 

“Você disse ‘Mantenha-se real’, mas você deve tentar manter-se certo. Isso é entender a matemática do microfone … ”
[De La Soul – The Bizniss]

Madib já falou sobre como De La Soul influenciou a sonoridade de “The Unseen”.  Em “Microphone Mathematics” Quasimoto explora a matemática, os números e sua habilidade lírica, aliado a um sample do De La Soul usado no inicio da faixa. A música, como diz o próprio nome, explora o conceito de habilidades com o microfone, questiona se os Mc’s dominar a matemática do mic, e se diz real e habilidoso no que faz. Mos Def, na faixa “Mathematics” também faz um jogo de rimas com esse conceito, 1 ano antes, no seu disco “Black On Both Sides” (É um jogo de números, mas a merda não soma de forma alguma / Como eu tenho, 16-32 barras, mas apenas 15 dos lucros, jamais vejo meus bolsos com 69. 000 bilhões nos últimos 20 anos / Gastos em defesa nacional, mas as pessoas ainda vivem com medo / Como quase metade das maiores cidades da América um quarto são pretos .. ).

Alguns versos são bem interessantes para analisar a visão de Lord Quas sobre o jogo do RAP, como quando ele diz “A nova raça fodendo o mainstream, além disso vamos ganhar creme / Continue fazendo a mesma coisa , elevando estilos além da explicação”. Aqui o alter-ego afirma mais uma vez sobre sua “criação maléfica”, a nova raça que veio para foder com o mainstream, como Madlib sempre fez, existindo a tantos anos no underground. Também é interessante notar o uso da gíria CREAM para dinheiro, como fez Wu Tang Clan no seu disco de estréia, “36 Chambers”. Influências, influências ..

Quasimoto, ilustração por Jeff Jank.
Quasimoto, ilustração por Jeff Jank.

“Eu nasci em 1973, eu tenho cinco irmãos que vivemos na nona rua, 
No dia 22 de Dezembro meu pai atirou em 6 policiais, eu lembro , nunca fui pego. 
Na 12 ª série pensando em riquezas de milhões de dólares, nos 3-4, eu quebrei cerca de uma dúzia de microfones, em 2000, esse é o fim da luta. É como se algumas pessoas não tivessem visão mental .. “

Esse verso é tão cheio de referência que eu preciso analisar cada uma delas pra que fique entendido a “matemática” dessas rimas, com o perdão do trocadilho.

1973 foi o ano onde Madlib nasceu. Como também foi o ano de lançamento do filme “La planete sauvage” que já comentei no início do post. Aqui é possível identificar tanto a reafirmação sobre como o filme influenciou o nascimento de Quasimoto, como entender a questão dele sempre ter feito parte da personalidade de Madlib, mesmo se mostrando apenas nos anos 90.

Outra linha muito interessante é onde o MC fala que “atirou em 6 policiais”. A palavra em inglês usada para pai no verso é “pop”.  Mas, “pop” é também uma gíria que os policiais usam para uma pessoa que confronta a polícia quando abordada, uma pessoa que os irrita. Numa análise mais fria, pode-se entender que Madlib, sendo o pai de Quasimoto, atirou em 6 policiais, e que ele é um “pop”, um cara que irrita os policiais. A compreensão desse verso é muito pessoal.

Sobre o verso “Na 12a série pensando em riquezas”, é possível enxergar a visão de Madlib sobre o que queria com a música, além de tudo o que já sabemos. Claro que, Madlib sendo esse artista excêntrico e que sempre deixa muito claro a sua visão sobre a música, fica evidente o seu desejo de viver de música, e ele fez isso tanto produzindo como “quebrando cerca de uma dúzia de microfones nos 3/4”. 3/4 é um tipo de compasso musical, bastante usado na valsa, mas também em outros estilos. Quasimoto se mostra um MC fora de série, com sonhos e habilidades infinitas.

Quasimoto em uma adaptação baseada no filme "La Planète Sauvage" de 1973.
Quasimoto em uma adaptação baseada no filme “La Planète Sauvage” de 1973.

Aqui fica bastante evidente o caráter do disco: É uma história sobre a criação e personalidade de Quasimoto, e como ele se comporta no mundo. E também já é possível entender o disco como uma forma de Gangsta RAP, abordado de uma forma menos violenta e suja, nada que se compare com os clássicos dos anos 90, mas que, ainda sim, é uma forma de violência satírica, metafórica, de certa maneira até sutil e ingênua.  No decorrer de todo o disco essa marca vai surgir, como podemos ver nos versos da faixa “Basic Instinct”.

“Nós temos o instinto básico para manter a festa ao vivo ( … )
Lord Quas retratando a ameaça, eu tenho uma quarenta no meu colo, minha fita tocando Boom Bap 
O mano ao meu lado falando sobre “Negros agindo como um homem que eu deveria ter trazido sua cinta”.
Eu disse para ele ficar frio, nós não estamos tendo problema entre pretos, eu dei nele um tapa no lado negro da mão, tirei um saco gordo, agora nós acendemos a “la” todos os dias da semana,
mantenha um negro longe de mexer nessa peça”.

Bom, mais uma linha cheia de metáforas. Mas, os versos aqui giram em torno da  violência e não-viioência, a não-violência entre negros. “Bater no lado negro da mão” é uma menção clara ao topo da mão, onde geralmente a pele tem uma cor mais escura, e no caso dos negros, a palma da mão pode ser branca. Portando, Quasimoto deu um tapa no lado negro da mão do homem, pedindo-lhe que fumasse maconha com ele, afim de apaziguar a violência para com outro irmão negro. Gênial!

Outra metáfora interessante, que foi muito usada por Mobb Deep no “The Infamous” é a “forty”. Forty é o nome de um licor de baixa qualidade e extremamente barato. Também pode ser uma analogia a .40, uma pistola. Ter uma 40 no colo é como ter uma garrafa de licor, ou uma arma, ou ambos. “Lord Quas retrata a violência com uma 40 no colo,” ouvindo uma fita que toca boom bap. Entendam como quiser, e tá aí a graça dessas linhas, o entendimento pessoal. De qualquer maneira, ele se mostra pronto para qualquer coisa, mas, ainda sim, querendo apenas fumar e relaxar com seus irmãos negros. Madlib nunca foi um cara de linhas politizadas, ou de defender causas, mas em várias de suas músicas podemos ver algumas linhas que trazem essa questão a tona, de forma muito sútil, como na faixa “Goodmorning Sunshine”, onde Madlib rima na maior parte da música e trás algumas linhas como:

“Você Você cresceu, farol!  Eu pedi pela última vez, por que você foi tão cruel? 
Quantos anos eu te pergunto? Você só nos deixa azuis , você não olha para nós (Agora, eu não tenho religião!”

Aqui Madlib se refere ao sol como uma divindade, o que é feito pelos povos pagãos de todo o mundo. Mais uma citação a Sun Rá, o Deus Rá da mitologia egípcia. Mas, essas linhas trazem um questionamento acerca do sofrimento negro nos Estados Unidos. “Black Blue” é um termo usado pelas comunidades afro-americanas para se referirem a si mesmos, e é uma expressão que também significa “muito machucado”.  “Porque o sol não nos ajudou?”. Madlib deixa claro que acredita em alguma divindade, mas rejeita os dogmas religiosos. E, por fim, na faixa seguinte, “Low Class Conspiracy”mais algumas linha sobre a questão do negro na America do Norte:

“Entramos na estrada depois de escurecer, e adivinhe quem sempre pára atrás de nós?
Deixando passar todos os tipos de carros em alta velocidade, só para que eles possam assediar nossas bundas negras 
A polícia nos puxando sem motivo , procurando algo no carro, como na época de caça aos negros, durante todo o ano … perguntando sobre onde está a libra .. 
Onde está a arma, vocês estão todos  em fuga?  Vocês tem mandados?
Vocês, manos, estão prontos para algum tormento? … “
[Quasimoto – Low Class Conspiracy]

Aqui fica evidente mais uma vez a perseguição racista que a policia faz com as comunidades negras. Estão sempre os abordando, procurando por “libras” – como em uma temporada de caça aos negros, que são, basicamente, uma unidade de medida onde 1 libra equivale a 448gr de maconha, peso comum nos EUA suficiente para condenação do portador da substância. Dentro das metáforas e de uma forma bastante debochada, Madlib mostra seu lado politizado com relação ao nosso povo que vive em diáspora.

“Return of the Loop Digga” dá uma guinada no disco e é a primeira das grandes referências a cultura dos “crate diggers” e das produções de Hip-Hop, bem como uma das grandes homenagens as suas referências musicais, que começam a dar ainda mais a cara no disco.

Um “crate digger” é uma pessoa que faz escavações atrás de discos e samples nunca utilizados. É uma cultura em decadência devido a era digital da música mas Madlib e Quasimoto se mantem firmes nessa empreitada. Existe um disco do Madlib, da série “Medicine Show”, chamado “The history of the Loop Digga” (2010). O disco, composto por produções suas entre os anos 1990 e 2000, faz menção a cultura “create digger” e traz uma série de batidas feitas pelo produtor no começo de sua carreira.. Voltando a música, não cabe aqui analisar todas as linhas devido ao tamanho da faixa, mas aqui é possível ver toda a letra. A faixa faz uma espécie de ataque aos produtores que não procuram por samples inéditos, reproduzindo em loop as mesmas coisas já utilizadas na cena, É também um ataque os produtores que não usam vinil, apenas CD’s e outras mídias digitais, o chamando de preguiçosos, fazendo mais uma vez uma critica a decadência da cultura dos “crate diggers”. Madlib também fala sobre como roubava os discos de sua tia, começando a produzir suas batidas, e que não fazia ideia de que isso um dia poderia lhe trazer cheques de dinheiro, movimentando a cena com coisas novas ao invés de “coisas quentes” ou hits do momento.

"The history of the Loop Digga", 2010, e uma capa icônica.
“The history of the Loop Digga”, 2010, e uma capa icônica.

“Boom Music” é, na minha opinião, uma das melhores faixas do disco, porque ela trás uma característica do Madlib que eu amo, que é a de sempre citar os pilares da cultura do Jazz e do RAP, exaltando e mostrando o eu respeito pelos seus ancestrais musicais.

A faixa fala por si só, não é necessário explicar as linhas, mas vou linkar no nome dos Mc’s/grupos citados músicas ou textos sobre eles, para que vocês possam também procurar pelos MC’s citados e conhecer um pouco mais de alguns dos maiores nomes de toda a história do Hip-Hop .

“Eu fico chapado e começo a fazer seleções de discos, primeiro por eleger EricB para presidente,
Zulu Nation para proteção , A Tribe Called Quest, KRS One, uma Inteligência secreta do Hip-Hop,
Diamond D e todo o D.I.T.C, Mc’s ultramagnéticos 
Gang Starr fazendo um show de graça e você pode fumar sua maconha, Lord Finesse ensinando rimas telepáticas .. “

Isso é só 1% dos grandes nomes, mas uma grande homenagem aos caras que pavimentaram o caminho pra que não só Madlib, mas todos os grandes artistas pudessem seguir seu caminho no Hip-Hop. Muito respeito aos nossos ancestrais!

"Diggin' in the Crates Crew", ou D.I.T.C: Lord Finesse, Fat Joe, o eterno Big L, Diamond D, O.C, Buckwild e Showbiz & A.G. Lendas!
“Diggin’ in the Crates Crew”, ou D.I.T.C: Lord Finesse, Fat Joe, o eterno Big L, Diamond D, O.C, Buckwild e Showbiz & A.G. Lendas!

Em “Jazz Cats Pt1”, Madlib e Quasimoto cantam no que é mais ou menos um dialogo como troca de referências ao Panteão do Jazz. Jazz Cats é uma espécie de lista de jazzistas em forma de rima, sendo recitado nomes e habilidades de nomes como Sun Rá, Bluenote, Black Jazz
Impulse e mais uma infinidade de gente foda no gênero musical. Um exercício interessante é anotar os nomes citados e procurar por cada um deles, é um aprendizado enorme da cultura do Jazz, ainda tão obscura para a maioria de nós. Eu gosto do último verso onde, depois de citar todas essas pessoas que a dupla admira (e sampleia!), Quasimoto vem com a sátira áspera: “Há muito mais que eu poderia citar, mas vocês não iram samplear /  De qualquer forma, eu amo jazz meu mano, nós temos o jazz, nós temos o jazz, meu mano .. “.

"Yo I be getting lit, sitting back listening to Sun Ra .. "
“Yo I be getting lit, sitting back listening to Sun Ra .. “

Madlib e Quasimoto, apesar de seres extremamente desapegados de coisas materiais, não fogem da necessidade capitalista de se obter dinheiro e mais dinheiro. E em MHB, ou “Money Hungry Bitches” a dupla vem rimando acerca do dinheiro e de como ele pode atrair pessoas interesseiras. São rimas machistas, e isso não podemos negar, visto que é uma abordagem exclusiva sobre “mulheres interesseiras”, mas é uma realidade que ambos gêneros enfrentam quando estão no topo, onde pessoas se aproximam para usufruir de seus bens, sem criar vínculos realmente afetivos. Fugindo do apelo sexista das letras, MBH é também uma critica a pessoas – especialmente aos homens, que torram o dinheiro que não tem para impressionar as mulheres, ao invés de buscarem laços de amor e companheirismo. Essa é uma das batidas mais bonitas do disco, com Madlib sampleando a música “Little children” do grupo de Jazz e R&B Kool & The Gang. Uma análise mais ampla mostra que, mesmo entre os MC’s menos ligados a temática do Gangsta RAP, o machismo predomina – e muito, na cultura dos Mc’s. Nem Madlib, meu grande ídolo, fugiu a isso.

[Jaylib (Madlib & J Dilla) se apresentando ao vivo, com Madlib cantando a faixa “MHB” aos 17:45]

O disco vai chegando ao final, e Quasimoto se mostra, mais uma vez, um viajante do espaço. Entre linhas e rimas sobre projeção astral, maconha e drogas em geral.

“Nós voamos pelo seu bairro em hipervelocidade, Astro viajando com aquela erva hidropônica, 
Eu sempre mantenho minha erva no convés, fumando maconha, (em qualquer lugar, em qualquer lugar, eu acendo a maconha) 

Nunca abrindo cocaína, isso não é brincadeira e eu não coloco agulhas nas minhas veias 
Eu não vou ficar sem dinheiro , estreitamente enevoado por dias, viajando mais alto
Abatendo pessoas, me perguntando por que estou tão conectado .. “

Eu já falei sobre maconha e projeções astrais em um post sobre as referências na mixtape ” The aPROcalypse” e “Amerikkkan Korruption”, do falecido MC Capital STEEZ. É um tema abordado por pessoas ligadas a espiritualidade, religiões pagãs, e isso pode ser mais uma influencia de Sun Rá na obra de Madlib. De qualquer maneira, é interessante notar as analogias entre projeção astral, ou simplesmente ficar chapado do verde. Caminhos para o divino, como dito por alguns crentes dessa crença. Aliás, é o verde que dá o tom na penúltima faixa do disco, “Green power”, a força do dólar, a injustiça social e o objetivo de todo preto como eu, ele, você: fazer dinheiro, ter a força da grana!

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Por fim, finalizando o disco de forma belíssima, chegamos a última faixa, “Discipline 99 pt.1”, uma das batidas mais bonitas do disco, com toda certeza.

Essa faixa é mais um ataque a “falsos MC’s” e trás foco nas habilidades de Quasimoto como um MC real. E temos mais uma vez a influência de Sun Rá sendo vista no disco, pois o nome “Discipline 99” vem de uma faixa do disco “Astro Black” do jazzista preferido de Madlib. 

Pegando algumas linhas soltas da faixa, com participação de Wildchild – e que começou em “Discipline 99 pt.0”, as referências ficam mais claras:

“Isto é Lord Quas com a mochila em cima, Tem uma equipe na baía que está sempre derrubando componentes,
Quando você está preso na rodovia, nós pulamos com a arma e tentamos obter o apelo das massas .. “

Bom, “apelo das massas” pode ser uma referência direta a faixa “Mass Appeal”, do Gang Starr, que Madlib e Quasimoto já haviam citado na faixa “Microphone Mathematics”. “Mass Appeal” trás versos ridicularizando MC’s que precisam do hype, do dinheiro ou qualquer outra coisa que não seja o talento para adquirir o apelo das massas, o reconhecimento do público do rap. Quando Guru fala Talvez você venderia sua alma para ter apelo de massa”, ele quer dizer que alguns MC’s fariam de tudo para serem famosos e amados na cena do RAP.

“LP, É o MC para levantar o teto, não é uma promoção, Então onde está a foto, de Quasimoto ?
Ele está olhando para trás pronto para atacar MCs com Peanut Butter Wolf,
Quem derruba as batidas que te fazem gaguejar, eu pulo no local como Dominique Wilkins quando ele está quente, vem até você inesperadamente como Gary Coleman, o único homem assustador!
Onde freestyle flui a cada momento, e nem mesmo possuo blunts, mas eu estou nublando .. “

Wildchild faz uma homenagem ao Lootpack a citar “LP”, um verso onde se fala sobre a qualidade dos MC’s do grupo, bem como um questionamento sobre a existência de Quasimoto. Se não há imagens, como ele está?

Ora, está atacando MC’s junto de Peanut Butter Wolf, sem os holofotes da mídia, sem deixar rastros. Este é Quasimoto, andando pelas sombras!

Wild também fala sobre sua capacidade de ficar louco, mesmo sem fumar blunts, seu freestyle é tão potente e nebuloso que causa uma viagem de maconha. Wildchild é certeiro sobre sua capacidade de rimas!

“Eu tenho a energia lírica, sempre programando um novo tipo de antídoto em seu perímetro 
Enquanto seus manos apenas limitam os estilos que você poderia estar fazendo, Lord Quas mantem a multidão ( … )
É engraçado como todos vocês, como vocês, manos, tem dinheiro , m
as no final do dia você ficou parecendo um manequim,enquanto eu batia em você com a Disciplina 99 .. “

O verso final de Quasimoto é repleto de ataques e metáforas. “Sempre programando um novo tipo de antidoto” é uma rima dual, pode ser entendida como uma rima que “combate um veneno” uma rima ruim. É também uma clara menção ao disco de estréia do Lootpack, “Antidote to da Antidope”, onde Madlib e Wildchild fazem as rimas.

Outra menção já usada no som é sobre “apelo das massas” ou “agradar o publico”, quando Quasimoto fala sobre “manter a multidão”. Gang Starr mais uma vez se faz presente!

E, finalizando a rima, Quasimoto explica que, enquanto MC’s fazem grana o tempo todo (Mass Appeal?), ele está simplesmente batendo em todos eles com a “Discipline 99”.A dupla está simplesmente batendo e doutrinando esses MC’s com sua disciplina!

E, chega ao fim a grande obra de Quasimoto, repleta de metáforas, samples, rimas ácidas, um Gangsta RAP que não se vê em canto algum da cena.

Quasimoto por Jeff Jank
Quasimoto por Jeff Jank

Legado e obra

“The Unseen” criou uma divindade no RAP. Quasimoto é retratado de inúmeras maneiras, em inúmeros ambientes e em diversas ocasiões. O personagem se tornou uma espécie de semi-humano, sendo homenageado pela prefeitura de Los Angeles e sendo retratado em camisetas, capas, quadrinhos e infinitas mídias.

“The Unseen” trouxe Madlib para a margem do Hip-Hop, dando vida ao produtor e o colocando no seleto grupo de clássicos do RAP. Antes mesmo de “Madvillainy”, “Champion Sound” e “Shades of Blue”, Madlib foi reconhecido por seu alter-ego, pela coragem de por a cara para rimar e falar sobre si mesmo, visto que é um disco em primeira pessoa, com infinitas rimas pessoais. Trouxe também uma sonoridade diferente, psicodélica, quebrada e experimental. Foi um disco divisor de águas na vida de Otis Jackson Jr e também para o RAP,

18 anos depois temos Madlib como um dos maiores produtores da história do Hip-Hop, e talvez o maior deles vivo. Passando pelo Jazz, MPB, Rock, RAP, Blues, TRAP e músicas indianas, Madlib se mostra tão excêntrico e lunático quando genial. O cara que passa 24 horas do seu dia ouvindo e produzindo músicas tem um acervo tão grande de material, que talvez precisaremos de 2 gerações para apreciar a grande obra do produtor.

“The Unseen” é, mais do que tudo, um grito de liberdade para o experimento e a liberdade de se fazer (e viver de) um RAP fora do jogo ou to mainstream, É também uma prova de que o talento as vezes se sobressai ao mercado, ao comercial e ao comum. Madlib nunca se importou com nada disso, e talvez todas essas caracteristicas aqui abordadas façam dele o Deus do RAP que é.

Obrigado Madlib, Quasimoto, Sun Rá. De La Soul, “La planete sauvage”, Peanut |Butter Wolf e Stones Throw por darem vida a essa obra memorável. O RAP agradece!

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Marco Aurélio

Fotografo shows sujos onde frequento, escrevo rimas que nunca vou lançar e faço pautas sobre coisas que vocês (ainda) não conhecem.